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Ataque de super bactérias

Uma nova geração de pragas resiste aos antibióticos até se tornar invencível. Por que todos nós estamos vulneráveis

Você pode não perceber, mas é um ecossistema ambulante. Noventa trilhões de micróbios habitam seu corpo – na maioria das vezes, harmonicamente. Só existe saúde e energia onde existem muitas, muitas bactérias do bem. Uma pop star como Madonna, por exemplo, não teria músculos invejáveis nem seria capaz de dar tantas piruetas se não estivesse colonizada por exércitos desses microorganismos. Em seu corpo bem cuidado, Madonna carrega 2,4 quilos de bactérias. Quer saber qual é a população que mora em você? Basta dividir seu peso por 20. Os habitantes invisíveis ocupam a pele, a boca, o estômago, os genitais – o corpo todo.

Desempenham inúmeras funções, entre elas vencer bactérias maléficas. Nos últimos anos, no entanto, a vida das bactérias do bem tem ficado mais ameaçada. O uso irracional de antibióticos levou ao surgimento de uma nova geração de bactérias do mal capaz de resistir a todas as armas. Essas superbactérias matam as bactérias benéficas e não podem ser contidas pela maioria das drogas. Às vezes, por nenhuma delas. Infecções causadas por bactérias resistentes podem afetar qualquer um – os jovens e os velhos, as pessoas saudáveis e as cronicamente doentes.As superbactérias costumam ser encontradas primordialmente nos hospitais.
É um ambiente propício a elas porque lá os organismos em que vivem (nossos corpos) estão debilitados por doenças e, portanto, são menos capazes de lutar contra elas. Além disso, o ambiente fechado favorece a contaminação – apesar dos cuidados extremos de limpeza. O problema, agora, é que elas deixaram de ficar restritas aos hospitais. Nos Estados Unidos, já foram identificadas em ginásios de esporte, academias, universidades, prisões. Os surtos provocados por uma única bactéria, a Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), afetaram centenas de milhares de pessoas e mataram 19 mil no país apenas em 2006.
O ataque das superbactérias continua.O mesmo pode ocorrer no Brasil? A resposta, simples e direta, é sim. O Brasil está preparado para enfrentar uma praga como essa? A resposta, dura e realista, é não. “Há dez anos, quase todos os casos de MRSA ocorriam nos hospitais. Agora ela está em todos os lugares”, disse Robert Moellering, professor da Harvard Medical School, à revista The New Yorker. A bactéria destrói a membrana dos glóbulos brancos, danificando as defesas primárias do corpo contra o micróbio. Surgem erupções na pele e inúmeras inflamações internas. O que no início pode parecer um simples resfriado revela-se uma doença fatal, capaz de matar a vítima por infecção generalizada em poucos dias. Cerca de 50% dos infectados atendidos no Hospital da Criança da Universidade de Chicago morrem. Quando o microorganismo não é sensível à meticilina, à oxacilina e a outras drogas semelhantes, os médicos têm uma única opção. É a vancomicina, uma droga intravenosa considerada como último recurso. Ela pode salvar o doente. Mas o custo total de tratamento de um paciente nessas condições pode chegar a US$ 40 mil.Recentemente foram relatados vários casos de MRSA parcialmente resistente até mesmo à vancomicina. E o pior: há no mundo pelo menos sete casos documentados de total resistência à droga. Essa bactéria resistente parece ter saído dos hospitais pegando carona nas mãos e nas roupas de médicos e visitantes. Pacientes dispensados do hospital e tratados da infecção em casa também podem disseminar a bactéria.Mais de 2 mil casos de infecção por MRSA adquirida fora dos hospitais foram registrados no Uruguai. Alguns casos esporádicos já foram relatados em cidades gaúchas próximas à fronteira. “Ninguém pede passaporte para as bactérias. Se vou ao Uruguai e troco um aperto de mão com uma pessoa infectada, posso trazer a bactéria comigo na volta ao Brasil”, diz Flávia Rossi, diretora do laboratório de microbiologia do Hospital das Clínicas em São Paulo.Nem todas as pessoas que têm contato com a bactéria adoecem.
O risco é maior em crianças e idosos porque eles costumam ter o sistema imune menos fortalecido. Pela mesma razão, outros grupos podem adoecer gravemente se forem infectados: portadores do HIV, pessoas em tratamento contra o câncer, transplantados ou doentes crônicos, como diabéticos.Outro exemplo é a Klebsiella pneumoniae. Ela tem formato oval e uma camada externa dura e cheia de açúcar. Essa cápsula dificulta o trabalho dos glóbulos brancos, que não conseguem engolfá-la e destruí-la. Pessoas saudáveis podem viver muito bem com a bactéria. Os que estão debilitados, no entanto, costumam adoecer gravemente. Em 2000, uma cepa da bactéria foi isolada de um paciente da UTI do hospital da Universidade de Nova York. Ela resistia à maioria dos antibióticos.
Nem amônia e desinfetantes poderosos conseguiam eliminá-la das instalações do hospital. Vários pacientes foram infectados. Além de pneumonia, sofreram infecções sanguíneas e no trato urinário provocadas pela Klebsiella. Dos 34 pacientes infectados no hospital naquele ano, quase metade morreu.

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Typhoid Mary Maria Tifóide


Mary Mallon, também conhecida como Maria Tifóide, nasceu na Irlanda do Norte em 1869 e emigrou sozinha para os Estados Unidos em 1883, foi o primeiro caso de pessoa aparentemente saudável a ser identificada como portadora defebre tifóide nos Estados Unidos. Seu organismo conseguiu deter os efeitos nocivos da bactéria que causa a doença, mas continuou capaz de transmitir a doença para outras pessoas.Maria se tornou famosa por sua obstinação em negar que ela era a causadora da aparição da enfemidade, negando-se a deixar de trabalhar e com isto continuou a propagar as bactérias mortais.

Na falta de qualificações profissionais, trabalhou como empregada doméstica nas vizinhanças de Nova Iorque, exercendo a função de cozinheira entre 1900 e 1907, período em que contaminou dezenas de pessoas. Quando sua situação foi constatada pelas autoridades sanitárias, prontamente foi isolada por um período de 3 anos em um hospital. (Maria é a primeira mulher na cama na foto abaixo.)


Para Maria ser liberada impuseram como condição de que não voltasse a manipular alimentos. Entretanto, em 1915 trocou de nome para Mari Brown e voltou a trabalhar como cozinheira em um hospital, reiniciando a difusão da doença. Deixou 25 infectados e dois mortos. Por conta disso, Mary foi confinada numa “quarentena” que durou o resto de sua vida.

Ainda assim Maria conseguiu emprego no hospital onde estava recolhida, primeiro como assistente e logo depois como técnica de laboratório. Converteu-se em celebridade, em diversas ocasiões era entrevistada por jornalistas que eram orientados a não aceitar nada que viesse das mãos dela.

Faleceu aos 68 anos, vítima de pneumonia. A autópsia revelou que ela continuava uma potencial irradiadora da febre tifóide.

À época, a atitude do poder público e da sociedade em relação a Mary foi tida como uma manifestação do preconceito contra os imigrantes, especialmente os irlandeses. No entanto, o desenrolar dos fatos comprovou que ela era, sim, responsável por contaminar outras pessoas, mesmo que não intencionalmente.

Desde então, “Maria Tifóide” (em inglês, Typhoid Mary) é um termo usado para designar aquele que, aparentemente saudável, é capaz de transmitir doenças aos demais, especialmente quando se recusa a fazer exames ou a tomar uma atitudea para minimizar o risco de propagação de doenças graves. Exemplo atual deste comportamento pode ser verificado na propagação da AIDS. A pessoa portadora do vírus não desenvolve a doença, mas pode matar outra pessoa ao infectá-la.

Caricatura de Mary de 21 de fevereiro de 1910 no New York Times

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