Curso Vacina Papilomavírus Humano 6, 11, 16 e 18

A introdução da vacina HPV no calendário vacinal é importante porque contribuirá para a redução dos casos de câncer de colo uterino, terceiro tipo de câncer mais frequente, excluindo o câncer de pele não melanoma (o primeiro é o câncer de mama; e o segundo, de cólon e reto), e a quarta causa de morte por câncer entre as mulheres brasileiras (a primeira é o câncer de mama; a segunda, o câncer de traqueia, brônquios e pulmões; e a terceira, o de reto) (INCA, 2013a; INCA, 2013b).

Cerca de 70% dos casos de câncer de colo de útero estão associados aos tipos 16 e 18 do vírus HPV; e 90% das verrugas genitais, aos tipos 6 e 11 (GUAN et al, 2012).

O papel da vacina HPV na prevenção do câncer de colo do útero

A vacina HPV prevenirá a infecção pelos sorotipos nela presentes e, consequentemente, atuará na redução de casos de câncer de colo de útero. Ela tem maior evidência de proteção e indicação para pessoas que nunca tiveram contato com o vírus. Os estudos mostram que a vacina produz 10 vezes mais anticorpos que a infecção natural por HPV (CDC, 2007). Desta forma, o grupo etário prioritário a ser vacinado contra o HPV pelo Ministério da Saúde é composto de meninas de 9 a 13 anos de idade.

A sua utilização é destinada exclusivamente à prevenção e não tem demonstrado efeito nas infecções pré-existentes ou na doença clínica já estabelecida. Até o momento, não há evidência científica de benefício em vacinar mulheres previamente expostas ao HPV (CDC, 2007).

Cabe lembrar que a vacina é uma ferramenta de prevenção primária e não substitui o rastreamento do câncer, pois a vacina não confere proteção contra todos os subtipos oncogênicos de HPV. Da mesma forma, a vacina não confere proteção contra outras doenças sexualmente transmissíveis e, por isso, é de suma importância o uso do preservativo em todas as relações sexuais (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2012).

Quanto à vacinação de meninos, dados demonstram que, considerando-se a prevenção do câncer do colo de útero, não é custo-efetiva quando altas coberturas vacinais são atingidas entre meninas. Como confirmaram os estudos australianos, os meninos são protegidos indiretamente com a vacinação do grupo feminino (imunidade de rebanho), havendo drástica redução na transmissão do HPV entre homens após a implantação da vacina HPV no país (READ et al, 2011).

A vacina hpv que será utilizada no Brasil

Até o momento, foram desenvolvidas e registradas duas vacinas HPVs. O Ministério da Saúde adquiriu a vacina quadrivalente para ser utilizada nas ações de vacinação no país (BRASIL, 2014).

A vacina quadrivalente recombinante confere proteção contra HPVs tipos 6, 11, 16 e 18 (Gardasil®), e a vacina bivalente confere proteção contra HPV tipos 16 e 18 (Cervarix®).

A vacina quadrivalente, do Laboratório Merck Sharp & Dohme (MSD), está aprovada no Brasil para a prevenção de lesões genitais pré-cancerosas do colo do útero relacionadas aos HPVs 16 e 18 e também para verrugas genitais em mulheres e homens relacionadas aos HPVs 6 e 11.

A vacina bivalente, do laboratório GlaxoSmithKline (GSK), está aprovada para a prevenção de lesões genitais pré-cancerosas do colo do útero relacionadas aos HPVs 16 e 18.

Conforme registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), essas vacinas possuem indicações para faixas etárias distintas. A vacina quadrivalente tem indicação para mulheres e homens entre 9 e 26 anos de idade, e a vacina bivalente tem indicação para mulheres a partir de 9 anos, sem restrição de idade.

O Ministério da Saúde adquiriu a vacina quadrivalente contra o vírus HPV, que confere proteção contra os sorotipos oncogênicos 16 e 18 e os sorotipos 6 e 11 associados às verrugas genitais.

Estudos de imunogenicidade, eficácia e duração da proteção

Observou-se que quase 100% das mulheres vacinadas com a vacina quadrivalente apresentaram soroconversão, depois do término do esquema vacinal (0, 1-2 e 6 meses), para os quatro tipos de HPVs, após um mês da terceira dose. Os títulos de anticorpos após a vacinação são mais elevados em comparação com os alcançados após a infecção natural (GARLAND et al, 2007; THE FUTUTRE II, 2007).

Até o momento, não há um correlato de títulos de anticorpos e proteção, no entanto os estudos de eficácia avaliaram desfechos, ou seja, se após a vacinação com o esquema completo, as mulheres vacinadas apresentavam lesões pré-neoplásicas e verrugas genitais. As características dessas lesões já foram descritas na unidade 1 deste curso. A eficácia da vacina quadrivalente para a prevenção de câncer de colo de útero foi de 98% (IC 95%, 86-100) e de 100% (IC 95%, 94-100) para as verrugas genitais (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2012; GARLAND et al, 2007; THE FUTURE II, 2007).

Saiba mais

Dos primeiros estudos de eficácia da vacina quadrivalente participaram mais de 20.000 mulheres entre 16 e 26 anos de idade. Observou-se que a proteção contra os desfechos de lesões pré-neoplásicas (NIC 2 ou 3 ou adenocarcinoma in situ) relacionadas aos sorotipos 16 e 18 foi de 98% (THE FUTURE II, 2007).

Estudos realizados com a vacina quadrivalente demonstraram proteção ampliada para outros sorotipos relacionados aos tipos 16 e 18, como os sorotipos 31, 33 e 45. No entanto, os estudos existentes ainda não conseguiram determinar a relevância clínica e a duração da proteção (MALAGÓN et al, 2012).

Os resultados dos estudos de seguimento com a vacina quadrivalente têm demonstrado a manutenção de títulos elevados de anticorpos por pelo menos 9 anos. Há estudos que estão acompanhando mulheres vacinadas há cerca de 20 anos (CDC, 2007; VILLA et al, 2006; ROMANOWSKI, 2011; ROWHANI-RAHBAR et al, 2009; SCHILLER; LOWY; MARKOWITZ, 2013).

Características da vacina HPV

O vírus HPV possui um capsídeo por duas proteínas denominadas L1 e L2. Observou-se que, após a infecção natural pelo HPV, há a formação de anticorpos neutralizantes contra a L1, e, a partir dessas constatações, as vacinas foram desenvolvidas.

Os métodos tradicionais de desenvolvimento de vacinas, como a inativação ou atenuação, não funcionavam para a produção da vacina HPV, mas, no ano de 1990, foi demonstrado que as proteínas L1 e L2, obtidas por recombinação genética, organizavam-se como a estrutura do cápside viral, que foi denominado de VLP (Vírus-Like Particles) ou partículas vírus-símile. Essas estruturas (“capas” virais) são incapazes de replicação, ou seja, por isso a vacina HPV é inativada. A vacina HPV é altamente imunogênica, capaz de induzir elevados títulos de anticorpos, superiores aos títulos da infecção natural, conforme apresentado na figura a seguir (CDC, 2007; SILVA, 2008).

Objetivo da vacinação e a meta

O principal objetivo da vacinação contra o HPV no Brasil é a prevenção do câncer do colo do útero, refletindo na redução da incidência e da mortalidade por essa enfermidade.Considerando-se que será utilizada a vacina quadrivalente, com os sorotipos 6, 11, 16 e 18, teremos também a prevenção das verrugas genitais (BRASIL, 2014).

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Atenção!

É importante lembrar que:

no Brasil será utilizada a vacina quadrivalente contra o HPV, a vacina papilomavírus humano 6, 11, 16 e 18 (recombinante);

o principal objetivo dessa vacinação é a redução dos casos de câncer de colo de útero e das mortes relacionadas à doença. No entanto, também haverá impacto sobre as verrugas genitais;

serão vacinadas apenas as adolescentes;

a vacinação contra o HPV terá início no mês de março de 2014.

Monitoramento e vigilância pós-vacinal

O monitoramento e vigilância pós-vacinal são também fases indispensáveis na introdução de uma nova vacina. Para isso, serão realizados investigação de eventos adversos, análises das coberturas vacinais, estudos do impacto das estratégias de rastreamento do câncer do colo do útero adotadas e outras análises, como de prevalência das alterações citológicas e monitoramento dos genótipos de HPV, que permitirão a adoção de medidas de ajustes quando necessário (BRASIL, 2014).

Para avaliação da vacinação será necessária a realização de estudos de curto, médio e longo prazos, conforme descrito no quadro a seguir.

Estudos de curto, médio e longo prazos para avaliação das vacinas

Prazo (anos após a introdução)

Avaliação primária

Avaliação complementar

Curto (5-10 anos)

Prevalência de genótipos HPV em adolescentes sexualmente ativos;
Avaliação da adesão à vacinação contra o vírus do HPV.

Prevalência de verrugas genitais.

Médio (10-15 anos)

Prevalência de lesões pré-cancerosas (com ajuste por cobertura de rastreamento);
Prevalência de genótipos de HPV em lesões precursoras.

Cobertura de rastreamento;
Positividade das provas de rastreamento.

Longo
(≥ 20 anos)

Incidência/mortalidade de câncer do colo uterino;
Prevalência de genótipos de HPV em câncer invasor.

Incidência de outros cânceres por HPV;
Cobertura de rastreamento;
Seguimento de mulheres com provas positivas de rastreamento.

Fonte: (BRASIL, 2014).

Vacina papilomavírus humano 6, 11, 16 e 18 (recombinante)

A vacina HPV é apresentada na forma de suspensão injetável, unidose, acondicionada em embalagem contendo 10 frascos-ampola. Cada dose é de 0,5 ml.

Composição da vacina HPV

20 microgramas Proteína L12,3 do Papilomavírus Humano1 Tipo 6

40 microgramas Proteína L12,3 do Papilomavírus Humano1 Tipo 11

40 microgramas Proteína L12,3 do Papilomavírus Humano1 Tipo 16

20 microgramas Proteína L12,3 do Papilomavírus Humano1 Tipo 18

Excipientes: adjuvante sulfato de hidroxifosfato de alumínio amorfo (225 microgramas de Al), cloreto de sódio, L-histidina, polissorbato 80, borato de sódio e água para injetáveis (BRASIL, 2014). 1Papilomavírus Humano = HPV. 2 Proteína L1 sob a forma de partículas tipo vírus produzidas em células de levedura (Saccharomyces cerevisiae CANADE 3C-5 (Estirpe 1895)) por meio de tecnologia DNA recombinante. 3 Adsorvida no adjuvante amorfo de sulfato de hidroxifosfato de alumínio (225 microgramas de Al).

Lembretes – vacina HPV Vacina no Brasil

Vacina no Brasil Vacina no Brasil Vacina no Brasil Vacina no Brasil Vacina no Brasil

Fonte: (BRASIL, 2014).

Esquema de vacinação

O esquema vacinal inicialmente indicado e utilizado em vários países para a vacina HPV é de três doses, com esquema 0, 1-2 e 6 meses, e os intervalos mínimos entre as doses são (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2012):

intervalo entre a primeira e a segunda dose de um a dois meses (mínimo de um mês);
intervalo mínimo entre a segunda e a terceira dose de quatro meses;
intervalo mínimo entre a primeira e a terceira dose de seis meses.

No Brasil, o Ministério da Saúde adotará o esquema vacinal estendido, aplicando-se três doses aos 0, 6 e 60 meses, ou seja, o intervalo entre a primeira e a segunda dose é de 6 meses e a terceira dose é de 60 meses.Há estudos já publicados de imunogenicidade com duas doses (intervalo de seis meses) da vacina quadrivalente em comparação com três doses (0, 2 e 6), e os títulos de anticorpos não foram inferiores, havendo inclusive maiores títulos no primeiro grupo. A terceira dose após 5 anos da primeira é uma garantia adicional para a manutenção de uma resposta mais prolongada (KREIMER et al, 2011; DOBSON et al, 2013, NEUZIL et al, 2011).

Esta decisão foi tomada a partir da recomendação do Grupo Técnico Assessor de Imunizações da Organização Pan-Americana de Saúde (TAG/OPAS) (PAHO, 2013) e após aprovação pelo Comitê Técnico de Imunizações do Programa Nacional de Imunização (PNI), reconhecendo a necessidade de dados adicionais a longo prazo (BRASIL, 2014).

Até maio de 2013, a vacina HPV já havia sido introduzida em 51 países como estratégia de saúde pública (BRASIL, 2014).

Você sabia?

Os resultados dos estudos de imunogenicidade com duas doses (intervalo de seis meses) da vacina quadrivalente no grupo de meninas de 9 a 13 anos, em comparação com três doses (0, 2 e 6) no grupo de mulheres jovens de 16 a 26 anos, não foram inferiores, havendo inclusive maiores títulos de anticorpos no primeiro grupo (DOBSON et al, 2013).

Neuzil e colaboradores (2011) observaram que quanto maiores forem os intervalos entre as primeiras duas doses da vacina quadrivalente, maiores serão os títulos de anticorpos obtidos imediatamente antes da terceira dose, o que pode resultar em resposta imunológica mais robusta em adolescentes e adultos jovens.

Kreimer e colaboradores (2011) observaram que, entre 802 mulheres na faixa etária entre 18 e 25 anos de idade que receberam duas doses (422 vacinadas e 380 controles), a eficácia foi de 84,1% (IC 95%, 50,2-96,3%).

O esquema estendido já foi adotado por países como Canadá (Quebec e Colúmbia Britânica), México, Colômbia e Suíça.

Esquemas alternativos da vacina HPV nas Américas

Fonte: (PAHO, 2014, adaptado).

Atenção!

O esquema vacinal será de 3 doses (0, 6 e 60 meses), ou seja, o intervalo entre a primeira e a segunda dose é de 6 meses; e entre a primeira e a terceira dose, de 60 meses;

Nas situações de atraso entre as doses, não haverá a necessidade de recomeçar o esquema vacinal;

Recomenda-se, para as adolescentes que tenham iniciado o esquema com a vacina bivalente, que terminem com a mesma vacina, nos próprios serviços onde iniciaram o esquema. No entanto, se não for possível, poderão completar o esquema vacinal com a vacina quadrivalente no serviço público;

Quando não é conhecida qual a vacina recebida e não há comprovação vacinal, a adolescente poderá iniciar o esquema com a vacina HPV quadrivalente disponível na rede pública;

Quando não é conhecido o número de doses já recebidas, iniciar o esquema com a vacina quadrivalente;

Não há dados disponíveis sobre a imunogenicidade ou eficácia das duas vacinas HPV quando usadas de forma intercambiável. Por isso, na medida do possível, aplicar a mesma vacina;

Se a adolescente já tem esquema completo da vacina bivalente, não revacinar com a quadrivalente.

Para fazer download deste quadro, clique aqui.

População a ser vacinada

A população alvo da vacinação são as adolescentes do sexo feminino.

No ano da introdução da vacina (2014), serão vacinadas as adolescentes na faixa etária de 11 a 13 anos de idade; em 2015, as adolescentes com 9, 10 e 11 anos de idade; e partir de 2016, as adolescentes com nove anos de idade, conforme apresentado no quadro a seguir.

A população indígena é um grupo de maior vulnerabilidade às doenças. A população alvo da vacinação é composta por indígenas do sexo feminino na faixa etária de 9 a 13 anos no ano da introdução da vacina (2014) e de 9 anos de idade do segundo ano em diante (2015).

População alvo da vacina HPV

Ano

População alvo

2014

Adolescentes do sexo feminino com 11, 12 e 13 anos de idade.
Indígenas do sexo feminino de 9 a 13 anos de idade.

2015

Adolescentes do sexo feminino com 9, 10 e 11 anos de idade.
Indígenas do sexo feminino com 9 anos de idade.

2016 em diante

Adolescentes do sexo feminino de 9 anos de idade e do ano em que completam 9 anos de idade.
Indígenas do sexo feminino com 9 anos de idade.

Fonte: (BRASIL, 2014, adaptado).

Administração simultânea com outras vacinas

A vacina HPV pode ser administrada simultaneamente com outras vacinas do calendário de vacinação.

Atenção!

Havendo possibilidade, aproveite o momento da vacinação contra o HPV e atualize o esquema vacinal para as vacinas dT (dupla tipo adulto), vacina hepatite B, SCR (sarampo, caxumba e rubéola) e febre amarela.

Contraindicações

As contraindicações para a aplicação da vacina HPV são (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2012):

reação anafilática aos componentes da vacina;
reação anafilática em dose anterior;
aplicação em gestantes, uma vez que não há estudos conclusivos até o momento. Se a adolescente engravidar após o início do esquema vacinal, as doses subsequentes deverão ser adiadas até o período pós-parto. Caso a vacina seja administrada durante a gravidez, nenhuma intervenção adicional é necessária, somente o acompanhamento pré-natal adequado.

Você sabia?

A vacina HPV é constituída de VLP, ou seja, apenas a “capa” do vírus. Essas estruturas (“capas” virais) são incapazes de replicação e são altamente imunogênicas , por isso essa vacina pode ser aplicada em pessoas imunodeprimidas (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2012).

Precauções

Abaixo algumas situações a serem observadas antes da vacinação: Doença febril aguda grave

Trombocitopenia

Imunodeprimidas

Saiba mais

Nos estudos realizados com a vacina HPV, as mulheres que ficaram grávidas durante o recebimento do esquema vacinal tiveram a vacinação suspensa, e as doses que faltavam foram aplicadas após o nascimento da criança. Essas gestantes foram acompanhadas e não se observou aumento na taxa de abortos e malformações congênitas (CDC, 2010; DANA et al, 2009; AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS 2012; CDC, 2007).

Nos estudos realizados com a vacina HPV, foram acompanhadas mulheres que estavam amamentando e não se observou eventos adversos associados à vacina nos lactentes (CDC,2007; AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2012).

Eventos adversos pós-vacinação (EAPV)

A vacina HPV é segura e bem tolerada, mas, como toda vacina, pode apresentar eventos adversos, conforme descritos no quadro a seguir.

Eventos adversos pós vacina HPV Tipo de evento adverso Principais sinais e sintomas Reações locais ─ Dor, edema e eritema de intensidade moderada, no local de aplicação. Manifestações sistêmicas ─ Cefaleia;

─ Febre de 38ºC ou mais;

─ Síncope (ou desmaio).

Fonte: (BRASIL, 2014 adaptado).

A síncope é uma alteração transitória da consciência acompanhada por perda da consciência e do tônus postural, causada pela diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro, com recuperação espontânea, a maioria ocorre nos primeiros 15 minutos após a vacinação. É uma das causas mais comuns de perda parcial ou total da consciência e, embora seja um distúrbio benigno, com boa evolução, de modo geral, tem potencial para produzir lesões, como fraturas do quadril ou dos membros (SCHILLER; LOWY; MARKOWITZ, 2013).

Você sabia?

Na Austrália e nos Estados Unidos, onde a vacina HPV já é aplicada, a taxa de síncope é baixa: 8,0/100.000 doses distribuídas (SLADE et al, 2009; CRAWFORD et al, 2011).

Geralmente há um estímulo desencadeante, como dor intensa, expectativa de dor ou choque emocional súbito. Vários fatores, como jejum prolongado, medo da injeção, ambientes muito quentes ou superlotados, permanência de pé por longo tempo, podem aumentar a ocorrência de síncope (BRASIL, 2014).

Portanto, para reduzir risco de quedas e permitir pronta intervenção caso ocorra a síncope, a adolescente deverá permanecer sentada e sob observação por aproximadamente 15 minutos após a administração da vacina HPV.

Atenção!

As adolescentes que apresentarem síncope poderão continuar o esquema vacinal.

Na ocorrência de síncope, o caso deverá ser notificado em 24 horas por meio de ficha própria e seguir o fluxo já estabelecido pelo Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação (SIEAPV). Veja a figura a seguir.

Fluxo de notificação de eventos adversos

Fonte: (BRASIL, 2008).

Apesar de a vacina HPV já ter sido amplamente estudada e ser utilizada de forma universal em diversos países, a investigação de EAPV é imprescindível para avaliar a segurança do produto. Para isso, tornam-se necessárias a notificação e a investigação de todos os eventos adversos graves (BRASIL, 2014).

Atenção!

A exemplo do que já é orientado para as outras vacinas, na ocorrência das situações descritas abaixo, com o objetivo de afastar qualquer associação com a vacina, a notificação também deverá ser realizada em 24 horas, seguindo o fluxo já estabelecido na figura anterior:

hospitalização por 24 horas;

disfunção ou incapacidade significativa e/ou persistente (sequela);

evento que resulte em anomalia congênita;

risco de morte;

óbito.

Clique aqui para ter acesso ao Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação (BRASIL, 2008).

Operacionalização da implantação da vacina HPV

Para o sucesso da campanha de vacinação contra o HPV, é fundamental o trabalho articulado entre as Secretarias Estaduais de Saúde, as Secretarias Municipais, as Regionais de Saúde, as Unidades Básicas de Saúde e as Escolas Públicas e Privadas. Para isso, é importante que cada instituição tenha suas atribuições e ações bem definidas e conhecidas, assim como a elaboração de um cronograma de atividades (BRASIL, 2014).

É fundamental a parceria com as escolas, com envolvimento dos professores na conscientização da importância da vacina HPV, contribuindo para a disseminação de informações, aceitação e participação das adolescentes na vacinação (BRASIL, 2014).

A vacina HPV poderá ser administrada nas escolas ou nas unidades de saúde, a depender da realidade local.

É importante esclarecer que o acesso dos adolescentes aos serviços de saúde, mesmo sem autorização ou desacompanhados dos pais ou responsáveis, inclusive à vacinação, é um Direito previsto na Constituição Federal Brasileira, no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) e no Sistema Único de Saúde (Lei 8080/1990) (BRASIL, 2014).

O Programa Nacional de Imunizações recomenda que seja realizado um registro nominal das adolescentes vacinadas para que possam ser “encontradas” nas situações de não comparecimento nas doses aprazadas. Tal medida visa à garantia do cumprimento do calendário vacinal.

Na unidade 3, é abordado com detalhes como realizar o registro nominal, o acompanhamento das coberturas vacinais e o fluxo de informações.

Está disponível no site do Ministério da Saúde o Guia Prático sobre HPV – Perguntas e Respostas, que aborda os aspectos relacionados não só às ações de vacinação contra o HPV, mas também as suas formas de contágio, a seu diagnóstico, a sua relação com o câncer e a sua prevenção. É importante que você conheça esse guia e indique a sua leitura para quem o(a) procurar perguntando sobre a vacinação contra HPV (BRASIL, 2014).

A seguir, sugerimos algumas ações que podem ser realizadas nos níveis estaduais e municipais para a implantação da vacina HPV:

constituir um Comitê de Mobilização com a participação da Atenção Básica, Saúde da Mulher e do Adolescente, DST-Aids, COSEMS, Secretaria Estadual de Educação, Saúde Indígena, Secretaria de Assistência Social (para as ações de vacinação para as adolescentes em situação de rua e as não matriculadas) e grupos/organizações estudantis para definição de um Plano de Ação com atividades de divulgação das ações de vacinação contra o HPV;
realizar seminários estaduais, regionais e municipais para sensibilizar e orientar os profissionais de saúde e de educação quanto à importância da vacinação;
divulgar as informações para profissionais de saúde, professores, pais e comunidade em geral por meio da mídia (jornais, TV, rádio, facebook, sites das secretarias de saúde e educação);
incluir, no plano de ação, a estratégia de vacinação de adolescentes em situação de rua e não matriculadas. Deve-se contar com o apoio de serviços de atendimento socioassistencial, tais como: CRAS, CREAS, Pastorais, serviços da rede de cuidados à pessoa com deficiência, entre outros;
realizar vacinação nas escolas:
essa ação será muito importante para o alcance da meta de 80% de cobertura vacinal das adolescentes. A experiência dos mais de 50 países que já adotam a vacina HPV demostra que melhores coberturas vacinais podem ser obtidas com a vacinação na escola, uma vez que essa estratégia facilita o acesso à vacina para as adolescentes que não procuram ou têm dificuldade de acesso às unidades de saúde. Além disso, como formadora de opinião, a escola possui legitimidade na disseminação das informações às adolescentes (BRASIL, 2014);
organizar e agrupar as escolas que ficarão sob responsabilidade de cada unidade de saúde;
visitar as escolas para agendar um momento de discussão sobre a vacinação;
agendar reunião com a direção das escolas, coordenação, professores (principalmente de ciências e biologia), pais e responsáveis para a sensibilização quanto à importância da vacinação e do cumprimento do esquema vacinal com as três doses;
é importante esclarecer que a vacinação das adolescentes nas escolas poderá ocorrer sem necessidade de autorização ou acompanhamento dos pais ou responsáveis, no entanto, caso não autorizem, deverão encaminhar o Termo de Recusa.

Para você não se perder, disponibilizamos a seguir um check list para a vacinação nas escolas, que também está disponível para download aqui.

Referências

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (AAP). Red Book: 2012 report of the Committee on Infectious Diseases. 29. ed. Elk Grove Village, Illinois: American Academy of Pediatrics, 2012. p.524-530.

ANVISA (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA). Soros e vacinas terão nomenclaturas padronizadas. 2008. Disponível em:Disponível em:. Acesso em: 10 jan. 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2008. 184 p.Disponível em:. Acesso em: 30 jan. 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. 1. ed. Rio de Janeiro: INCA, 2011. 104 p. Disponível em:. Acesso em: 30 jan. 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de vigilância das doenças transmissíveis. Coordenação geral do Programa de Nacional de Imunizações. Informe técnico sobre a vacina papilomavírus humano (HPV) na atenção básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

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CRAWFORD, N. W. et al. Syncope and seizures following human papillomavirus vaccination: a retrospective case series. MJA, v. 194, n. 1, p. 16-8, jan. 2011. Disponível em:. Acesso em: 30 jan. 2014.

DANA, A. et al. Disponível em:Pregnancy outcomes from the pregnancy registry of a human papillomavirus type 6/11/16/18 vaccine. Obstet Gynecol, v. 114, n. 6, p. 1170-1178, dec. 2009.

DOBSON, S. R. M. et al. Immunogenicity of 2 doses of HPV vaccine in younger adolescents vs 3 doses in young women. JAMA, v. 309, n. 17, p. 1793-1802, may 2013. Disponível em:. Acesso em: 30 jan. 2014.

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